A frase dele é simples, direta, quase um slogan de vida: “o Brasil cresce, Irecê abastece”.
E eu, jornalista que mora na capital e vive tentando decifrar a lógica — e a alma — do interior, resolvi ir até Irecê para conhecer de perto um personagem que atravessa gerações da política sertaneja. Tive o privilégio de sentar na roça com o primeiro tabaréu da Caatinga a enfrentar Antônio Carlos Magalhães.
Cheguei sem avisar. Porteira aberta. Casa aberta.
“Cadê o homem que fez chover em Irecê?”, perguntei.
Lá estava ele: Seu Doinha, 83 anos, do tempo em que se dizia andar atrás de Lampião. Aniversaria em 20 de dezembro, sagitariano, coração grande. Daqueles que apertam a mão olhando no olho.
Ex-prefeito de cinco cidades — Irecê, Lapão, João Dourado, América Dourada e São Gabriel —, ele carrega uma gentileza que não se ensina em manual de política. Na década de 80, quando era prefeito, os quatro últimos ainda eram distritos e povoados de Irecê, na época dos plebiscitos.
Foi o primeiro a derrotar os Dourados. Formou-se em Contabilidade e, já com idade avançada, resolveu estudar Direito. Eu já conhecia parte da lenda — dizem que é metido a cientista político — e meu amigo João da Hora, coração gigante e crítico da forma como o PT atua, tinha me dado algumas pistas.
Resolvi brincar:
— O senhor sabia que é meu padrinho?
Ele parou, olhou, coçou a cabeça:
— Você é filho de quem?
— Carlão.
Silêncio.
— Já batizei tanta criança, moço, que perdi as contas…
Na gestão dele, batismo coletivo era política pública: virava padrinho de 50 entre 200 meninos. Quando contei que era brincadeira, caiu na gargalhada. Em retribuição, me ofereceu um umbu gigante, o primeiro da roça. Doce como mel, zero acidez.
A conversa, claro, foi escorregando para a política — do jeito que só o sertão sabe fazer.
“Aqui o trem não é dinheiro, é amizade. É conversa. É ir pra feira falar com o povo, entrar na casa”, ensinou.
“Tem que unir quem tem voto. Não adianta se iludir. Política precisa de coordenação profissional”, sentenciou, como quem fecha questão.